O Jardim das Confusões: Tempo, Espaço e Kant – Matheus de Paula e Ruan Leal

O Jardim das Confusões: Tempo, Espaço e Kant – Matheus de Paula e Ruan Leal

Observação prévia: é extremamente recomendado que se leia as notas de rodapé no decorrer da leitura do texto, pois são cruciais para o bom entendimento do artigo.


 

Este artigo tem como objetivo avaliar as considerações de Olavo de Carvalho a respeito da epistemologia kantiana. Duas foram as fontes que nos serviram dos comentários de Olavo: a aula de seu curso de história da filosofia sobre Immanuel Kant[1] e um artigo chamado “Kant e a mediação do tempo e espaço”, que consta de seu  antigo endereço eletrônico[2].

Uma análise séria desses materiais mostrará o quão frágeis são as críticas neles presentes. Falamos isso porque, para que se critique algo, é necessário primeiro que se entenda bem o que se quer criticar, o que não parece que Olavo fez.

Em sua aula para o curso de história da filosofia, Olavo explicita algumas dificuldades que enxerga na obra de Kant. As principais críticas são: a mediação entre tempo e espaço, o problema que ele exemplifica com analogia do sapo e da águia e a suposta impossibilidade de o sistema kantiano ser coerente em decorrência do loop gerado por sermos objetos de nossa própria percepção.

Olavo declara nessa aula:

“Essas objeções todas aqui não são minhas, elas são apresentadas. Eu creio que a única que é minha propriamente dita é a da correspondência do  negócio do sapo e da águia, quer dizer, o emissor e o receptor, e a articulação do espaço-tempo. Porque se não existisse a articulação de espaço tempo, então a síntese de espaço e tempo teria que ser racional e não perceptiva. Se as duas únicas condições da percepção são o espaço e o tempo, o que lhe permite dizer que tal coisa aconteceu durante “x tempo” e em tal lugar? Somente uma síntese racional, teria que ser uma uma síntese lógica, não uma síntese perceptiva. Então, o fato de nós percebermos o movimento teria que ser explicado por um raciocínio que você está fazendo.”

Visto que Olavo considera sua crítica a respeito da mediação entre tempo e espaço algo original, trataremos de comentá-la aqui. O assunto, como se verá, é demasiado extenso para que possamos investigá-lo junto dos demais itens atacados. Daí que não poderemos examinar, por ora, a crítica que tem que ver com a analogia do sapo e da águia e também suas considerações sobre sermos objeto de nossa própria percepção.

Passemos, então, a analisar os supostos problemas que Olavo vê na mediação entre tempo e espaço na Estética Transcendental de Kant.

Para Olavo, funciona assim: uma vez que Kant considera que o espaço é a forma pura da exterioridade e o tempo a forma pura da interioridade (o que para Olavo significa que o tempo só se aplica ao interior), então, temos de admitir que há um problema de articulação. E qual seria esse problema? É que, como se percebe o movimento de uma vez, isto é, num ato só, ocorrendo no tempo e no espaço simultaneamente, como explicar a divisão proposta por Kant de formas puras separadas uma para o exterior e outra para o interior? Estando separadas, pensa Olavo, essa articulação teria de ser racional e não perceptiva como Kant defendia.

Para que se entenda melhor a objeção, comentaremos em detalhes o artigo que Olavo dedicou a esse tema. Parece ser um texto que serviu de material de apoio e maior esclarecimento para seus alunos.

O texto começa assim:

“Kant diz que o espaço não pode ser percebido empiricamente porque o simples ato de situarmos alguma coisa “fora” de nós já pressupõe a representação do espaço. O espaço não é portanto uma propriedade das coisas, mas uma forma sobreposta às coisas pela minha intuição delas.”

Aqui já se percebe falta de precisão. Kant em nenhum lugar disse (ou possibilitou inferir) que o espaço é uma forma sobreposta pela intuição às coisas. Não, não. Para que se entenda o equívoco, deve-se conhecer bem a terminologia expressa em a Crítica da Razão Pura.

Observe-se:

Intuições[3] podem ser empíricas (quando se referem a um objeto de experiência possível pela sensação) ou puras (aquelas sem conteúdo empírico). A percepção particular e sensorial que temos quando vemos um carro, por exemplo,  é caso de intuição empírica. Já os exemplos de intuições puras, por não haver outros, são só dois: espaço (raum) e tempo (zeit). Elas são representações subjetivas[4], puramente formais e singulares. Em si, elas contêm aquilo que Kant chama de “aparências”[5].

Explicando melhor: considere-se a intuição de um objeto indeterminado que corresponde ao conceito[6] de um carro. Essa percepção sensorial (intuição empírica) tem como objeto a aparência cuja forma é o tempo  e espaço (formas puras da Sensibilidade) e tem como matéria as qualidades físico-sensoriais que correspondem a qualidades subjetivas de como o objeto é percebido, como sensações olfativas, aurais, visuais etc.

E o que essa explicação toda nos revela? Conjugando esses esclarecimentos com uma compreensão correta da Estética Transcendental de Kant, conclui-se que Olavo comete dois erros:

1) Ele diz que espaço não é percebido empiricamente por causa da necessidade de pressuposição de espaço quando situamos algo “fora de nós”; quando, na verdade, o espaço enquanto intuição pura, ou seja, o espaço metafísico/transcendental da Estética Transcendental, não é percebido empiricamente por ser puramente formal e independente de qualquer consciência empírica (percepção).

2) O autor considera que as intuições projetam o espaço. Como poderia, no entanto, o espaço ser uma forma sobreposta pela intuição (que nesse caso só pode ser empírica) que temos das coisas? Kant jamais escreveu uma linha sequer nesse sentido. O espaço atua NA intuição das coisas. O que significa, em outras palavras, que eu não sobreponho o espaço às coisas PELA nossa intuição delas. É claro que não pode ser assim, pois nossa intuição pura do espaço é anterior. E sua ação como forma da sensibilidade é pré-requisito para que qualquer outra intuição ocorra. Não há nada disso de que uma intuição (que é mera representação de algo para a consciência) projete o espaço. Essa declaração sequer faz sentido.

Como prova de que esse entendimento é claro nas obras Kant, seguem-se os seguintes textos:

“Consciência de si mesmo (apperceptio) é um ato no qual o sujeito faz de si mesmo um objeto. Não é percepção (apprehensio simplex), i.e., nenhuma representação dos sentidos (o que iria requerer que o sujeito fosse afetado por um objeto, e a intuição se tornaria empírica), mas a intuição pura, que sob o nome de espaço e tempo contém meramente  a forma de composição (coordinatio, et subordinatio) do múltiplo da intuição; com eles, advém um princípio a priori da cognição sintética do múltiplo que, justamente por isso, torna o objeto na aparência representável” (Opus Postumum II, p. 413)[7]

“Espaço e tempo são intuições sem um objeto, dessa forma meramente formas subjetivas da composição [Zusammenstellung] do múltiplo na infinitude de um inteiro absoluto (que não é uma parte de um inteiro maior ainda). Não é algo que é apreensível e que é dado para a percepção (dabile), mas a auto-determinação do sujeito, a forma na qual isso constitui isso mesmo o objeto, e esse é o seu único objeto” (Opus Postumum II, p. 74)

“Espaço e tempo não são em si coisas [Sachen], mas apenas representações das relações apreensíveis da representação para o sujeito na medida em que ele faz de si mesmo um objeto sinteticamente (não analiticamente, de acordo com a lei da identidade) na intuição pura.. Espaço e tempo não são objetos dados de intuição, mas formas de intuição em si e da relação sintética do múltiplo no espaço e tempo. Eles precedem a existência dos objetos dos sentidos a priori – não como percepções (representação empírica com consciência), nem como um agregado de um determinado (delimitado múltiplo), mas como um sistema” (Opus Postumum II, p. 90)

“Uma intuição que é supostamente possível a priori pode dizer respeito apenas à forma sob a qual o objeto é intuído, já que representar algo a priori significa fazer uma representação disto anteriormente e independentemente da percepção, i.e., consciência empírica.” (Progress in Metaphysics, Ak 266)

Seguindo o fluxo do artigo, mais adiante Olavo diz:

“Mas aí o espaço está identificado com o “fora”, com a exterioridade, e não posso, só com base na pura representação da exterioridade, dizer que algo está fora de mim: esta afirmação é claramente a de uma relação entre o fora e o dentro, e pressupõe portanto a representação de ambos. Só que o “dentro”, para Kant, é o puramente temporal e inespacial: o espaço é a forma a priori da exterioridade como o tempo é a da interioridade”

Errado novamente. Kant não mantém uma relação de identificação de “espaço” com o “fora”. Na verdade, até há um momento em Crítica da Razão Pura em que Kant diz que a expressão “fora” (ou “fora de nós”) é ambígua e necessita de cuidado em seu emprego. Mas, curiosamente, nenhum dos dois sentidos apresentados para o termo encontra correspondência com o que Olavo diz.

Eis a declaração de Kant:

“Porque, entretanto, a expressão: fora de nós traz consigo um equívoco inevitável, significando ora –algo que existe como coisa em si, distinta de nós, ora algo que pertence simplesmente ao fenômeno exterior, para colocar fora de incerteza este conceito tomado neste último sentido, que é aquele em que propriamente é tomada a questão psicológica respeitante à realidade da nossa intuição externa, distinguimos os objetos empiricamente exteriores daqueles que poderiam chamar-se assim no sentido transcendental, designando-os por coisas que se encontram no espaço.” (A 374) [8] (Destaques nossos.)

Note-se que, enquanto Kant diz que “fora” pode ser tanto a “coisa em si” quanto o “fenômeno exterior”[9], Olavo considera que Kant iguala “fora” com o espaço, mas este, como vimos, na verdade, é forma pura da Sensibilidade. Confundir uma coisa com a outra predestina um futuro de vários outros problemas. E, como se verá, foi o que ocorreu nas interpretações de Olavo. De onde ele aduziu que o espaço mantém relação de identificação com o “fora” é algo que ainda terá de explicar, pois Kant não diz que espaço seja isso[10].

Admito, no entanto, que esse erro de Olavo é periférico perto da declaração que ele fez de que “o ‘dentro’, para Kant, é o puramente temporal e inespacial”. Mais para frente, ele confirma a suspeita que tivemos em relação a que esse comentário sobre o “dentro” levaria:

“Ora, se só possuo uma representação espacial do fora, enquanto do dentro tenho somente uma temporal, não posso, rigorosamente, dizer que nada em particular está fora de mim, porque a existência espacial em geral já consiste em estar fora. Dizer que algo está fora é, então, apenas dizer que não tem uma existência puramente temporal, mas que além de existir no tempo tem alguma outra determinação especificamente diferente. Em que consiste essa determinação? Parece impossível defini-la exceto negativamente, isto é, dizendo que na coisa percebida fora há um algo que não é tempo.

A pura existência temporal, inespacial, — que Kant identifica com a interioridade — apresenta similar dificuldade. Se tentamos dizer em que consiste, temos de nos contentar com excluir o espaço, e aí se torna impossível distinguir entre a inespacialidade e a simples inexistência

Essas dificuldades provêm da identificação entre “espaço” e “fora”, entre “tempo” e “dentro”. Sem admitirmos um “espaço interior” e um “tempo exterior”, não temos como dizer que alguma coisa está fora de nós, porque isto resulta em excluí-la do tempo, nem dentro, porque resulta em excluí-la do espaço, suprimindo em ambos os casos sua existência empírica, que segundo Kant consiste precisamente em estar no tempo e/ou no espaço.”

O primeiro parágrafo apresenta um raciocínio difícil de ser desenrolado. Falamos isso porque a conclusão a que Olavo chega aqui é a de que não podemos dizer (supostamente seguindo Kant) que “nada em particular está fora” de nós. De que premissas, porém, ele retira essa conclusão? Respondemos: [1] de possuirmos uma representação espacial só para o “fora” e uma temporal só para o “dentro” e [2] de a existência espacial já consistir em estar fora. É claro que os termos estão sendo usados de forma vaga e confusa, mas como pode ser que do fato de a existência espacial consistir em estar “fora” se possa concluir que “nada em particular está fora” de nós? E em que a alegação de que temos uma representação espacial somente para o fora e uma representação temporal somente o dentro ajuda para que se chegue a tal conclusão? Como uma coisa leva a outra? O raciocínio carece de lógica interna. É curioso que mesmo usando os termos como bem lhe parece, Olavo não consegue fugir de um non sequitur.

O problema maior, todavia, não está nessa confusão silogística, mas em outro ponto em que a ignorância do autor se apresenta de forma mais latente. Para que se demonstre isso, é necessário destacar os dois erros fundamentais nos quais essa (tentativa de) crítica incorre:

1) considerar que o tempo só se aplica ao que é interno[11];

2) alegar que existência é estar no tempo e/ou no espaço.

Primeiramente, note-se que, ao contrário do que ingenuamente afirma Olavo, o tempo rege não só o que está no sentido interno (embora seja propriamente a forma deste), como também o que está no sentido externo. Aliás, essa é a base com a qual Kant pode mostrar, posteriormente, de que forma as categorias adquirem realidade objetiva e são constitutivas da experiência, uma vez que se aplicam a priori em todos os objetos de intuição. Isso se dá através de determinações de sínteses temporais, pois estas subjugam o que está no sentido interno e no sentido externo[12].

Eis o que Kant, de fato, diz:

“O tempo é a condição formal a priori de todos os fenômenos em geral. O espaço, enquanto forma pura de toda a intuição externa, limita-se, como condição a priori, simplesmente aos fenômenos externos. Pelo contrário, como todas as representações, quer tenham ou não por objeto coisas exteriores, pertencem, em si mesmas, enquanto determinações do espírito, ao estado interno, que, por sua vez, se subsume na condição formal da intuição interna e, por conseguinte, no tempo, o tempo constitui a condição a priori de todos os fenômenos em geral; é, sem dúvida, a condição imediata dos fenômenos internos (da nossa alma) e, por isso mesmo também, mediatamente, dos fenômenos externos. I Se posso dizer a priori: todos os fenômenos exteriores são determinados a priori no espaço e segundo as relações do espaço, posso igualmente dizer com inteira generalidade, a partir do princípio do sentido interno, que todos os fenômenos em geral, isto é, todos os objetos dos sentidos, estão no tempo e necessariamente sujeitos às relações do tempo.” (A-34, B-51)

“Venham as nossas representações de onde vierem, sejam produzidas pela influência de coisas externas ou provenientes de causas internas, possam formar-se a priori ou empiricamente, como fenômenos, pertencem contudo, I como modificações do espírito, ao sentido interno e, como tais, todos os nossos conhecimentos estão, em última análise, submetidos à condição formal do sentido interno, a saber, ao tempo, no qual devem ser conjuntamente ordenados, ligados e postos em relação.” (A, 99)

Fica claro, pois, que para Kant o tempo não se aplica somente às representações do sentido interno. O tempo também se aplica às representações do sentido externo. A declaração de Olavo de que o tempo se limita à interioridade é falsa, e posicionar algo no espaço não significa excluí-lo do tempo. Kant só chama o tempo de forma pura do sentido interno pela primazia que aquele tem sobre este, vez que não é possível que exista algo espacial no sentido interno. Dessa forma, qualquer problema de articulação no que se refere ao que está fora é cortado pela raiz.

É evidente, porém, que a crítica de Olavo em relação a não se conseguir distinguir entre a inespacialidade da simples inexistência decorre, também, de sua interpretação falha de que “‘existência empírica’ ‘segundo Kant consiste precisamente em estar no tempo e/ou no espaço’”. O raciocínio é o seguinte: se existir, para Kant, é situar-se no tempo e no espaço, como algo poderia existir “dentro” se “dentro” não há espaço? E uma vez que posicionar algo em uma dessas formas puras resulta em excluí-lo da outra, como algo pode existir empiricamente? Daí ele conclui que não seria possível fazer uma distinção entre a inexistência e a atemporalidade, pois na interioridade não há espaço.

A crítica, todavia, escorrega no fato de que a definição de Kant para existência não é essa. Equacionar bem o assunto nos exigirá saber que a epistemologia kantiana diferencia os seguintes termos: existência (existenz) e atualidade (wirklichkeit).

Existência, em Kant, é pura marca categórica e intelectual, ou seja, não pressupõe nenhum conteúdo sensível (nem sequer o espaço ou o tempo). Trata-se de uma mera função de combinação lógico-discursiva e não pode ser usada como um predicado de primeira ordem. O que se quer dizer por isso é que a existência não é um predicado real, como se somasse alguma informação sobre o sujeito. Por exemplo, dizer que uma blusa é amarela acrescenta (ou revela), nessa frase, uma propriedade de cor a um objeto; no entanto, dizer que uma blusa existe não tem o mesmo efeito. Constatar a existência de algo não é atribuir-lhe uma propriedade. A existência como predicado é considerada, assim, um predicado de “segunda ordem”, como Kant esclarece na refutação ao argumento ontológico de Descartes. Então, quando dizemos que “uma blusa existe” (ou “tem existência”, como alguns poderiam formular), o que se quer dizer é que há objetos que correspondem a esse meu conceito de blusa; mas, por certo, não estou atribuindo uma qualidade à blusa.

Porém, como puramente intelectual, a existência como categoria não contém nada de sensível. É puramente a marca categorial de que existe algo para o Entendimento. E isso significa que sua percepção pode preceder o conceito, pois, como diria Kant, se o conceito precede a percepção, isso é meramente possibilidade.

Deixaremos que Kant mesmo esclareça:

“As categorias da modalidade têm a particularidade de nada acrescentar, como determinações do objeto, ao conceito a que estão juntas como predicados, e apenas exprimir a relação com a faculdade de conhecimento.” (A, 219)

“No simples conceito de uma coisa não se pode encontrar nenhum carácter da sua existência. Embora esse conceito seja de tal modo completo, que nada lhe falte para pensar a coisa com todas as suas determinações internas, a existência nada tem a ver com tudo isso; trata-se apenas de saber se a coisa nos é dada, de tal modo que a sua percepção possa sempre preceder o conceito. I Se o conceito precede a percepção, isto significa a mera possibilidade da coisa; mas a percepção, que fornece a matéria para o conceito, é o único carácter da realidade.” (B273)

Já a atualidade é a esquematização da categoria da existência sob o Segundo Postulado do Pensamento Empírico em Geral. Ela se aproxima do que Olavo quer dizer com “existência real” ou “existência empírica”. A atualidade se dá quando a existência se manifesta em determinado tempo (A 145/B84). O que é atual é “aquilo que está conectado com as condições materiais da experiência (da sensação)”(A 218 / B 266). Portanto, é a atualidade que se refere à condição de existência empírica (seria melhor considerar como “existência objetiva”). E mesmo que ignorássemos todos nossos esclarecimentos anteriores, ainda nos restaria a afirmação de que essa “existência empírica” não consiste em estar no espaço e no tempo, mas sim em uma existência em um “determinado tempo”.

Portanto, o que Olavo deveria ter usado é a palavra “atualidade” e não “existência”. Criticar o fato de que ele não sistematiza e/ou sabe essas nuances não é mero capricho nosso. É que não levar em consideração a diferença de cada vocábulo em situações específicas pode nos conduzir a conclusões diversas das pretendidas por Kant. Uma crítica honesta deve sempre se empenhar em entender corretamente os termos da discussão.

Assim, Olavo erra em chamar de existência aquilo que, na verdade, está mais próximo de atualidade. E mais: mesmo que tivesse usado a palavra correta, estaria sendo impreciso ao dizer que esta se define como posicionar algo no tempo e/ou no espaço, pois, como a atualidade (=existência empírica) se realiza na determinação de uma síntese temporal, a definição dada por Olavo está errada. Lembremos, no entanto, que isso não significa uma não-articulação em relação ao que está no espaço, vez que o espaço é indiretamente/causalmente necessário para representações internas, como veremos mais para frente.

Não se deve deixar de notar, também, o curioso fato de que, na definição deturpada de Olavo de “existência” para Kant, parte do problema levantado já seria solucionado pela mesma definição. É que o articulista diz que a existência, em termos kantianos, seria o posicionar-se no tempo “e/ou” no espaço. Ora, só haveria, de fato, um problema se a definição de existência fosse posicionar algo no tempo E no espaço, pois é isso que Olavo pressupõe a todo instante em sua crítica quando diz que posicionar algo fora de nós resultaria em suprimir a existência empírica desse algo (já que isso significaria excluí-lo do tempo). Perceba-se que, se Kant tivesse aberto a possibilidade para que a existência fosse posicionar algo no tempo OU no espaço, o que ele jamais defendeu, não haveria nada de supressão de existência empírica, pois a existência, por essa caricatura de definição, já abarcaria a possibilidade da existência só no tempo ou só no espaço.

De toda forma, respondendo a um objetor que julgue que apontar os erros de Olavo não é suficiente para resolver a questão levantada sobre a mediação entre tempo e espaço, ou  a algum objetor que não entenda por que o espaço é indiretamente/causalmente necessário  como citado anteriormente, preparamos um apêndice para tratar disso. O leitor pode consultá-lo ao final deste artigo.

Continuando a leitura de seu texto, em sequência, Olavo diz:

“Sem a mediação entre espaço e tempo, nenhuma percepção é possível. Mais ainda, essa mediação não pode ser puramente racional, mas tem de estar imbricada na estrutura mesma da percepção, porque caso contrário o ato de situar algo dentro ou fora seria a conclusão de um raciocínio e não um ato de percepção, que é precisamente o que Kant diz que ele é. No entanto, o conceito dessa mediação é incompatível com a redução kantiana do espaço e do tempo a formas a priori da sensibilidade projetadas sobre as coisas; porque a exclusão mútua do dentro e do fora constitui, para Kant, a estrutura mesma do ato de percepção: se houvesse um território intermediário entre tempo e espaço, esse território seria ele próprio a suprema forma a priori da sensibilidade, abrangendo e distinguindo espaço e tempo. Mas não há em Kant menção a esse terceiro fator: além do espaço e do tempo, há só as categorias da razão”

Não é de estranhar que Olavo avente a possibilidade da consequência indesejada de uma “mediação racional”. Não se pode esperar mais rigor nenhum quando Olavo diz que “além do espaço e do tempo, há só as categorias da razão”. Categorias de quê?! Da razão?! De onde ele inferiu que existem “categorias da razão”? Quais são elas? Ele sabe dizer? Olavo irá ler a Crítica da Razão Pura procurando pelas categorias da razão, mas com cuidado, do início ao fim, e sabe o que achará? Já adiantamos o resultado: nada. Absolutamente nada. As categorias são do ENTENDIMENTO (a faculdade dos conceitos) e não da RAZÃO (faculdade das inferências). Confundir as duas coisas consiste num erro crasso.

Existem 12 categorias do Entendimento que se organizam em quatro grupos, cada um correspondente às formas lógicas do Juízo. Eis um breve resumo de quais são as categorias e suas divisões: quantidade (unidade, pluralidade e totalidade), qualidade (realidade, negação e limitação), relação (inerência-substância, causalidade-dependência e comunidade) e modalidade (possibilidade-impossibilidade, existência-inexistência e necessidade-contingência). Essas são as categorias. Não são outras. São essas. E não da Razão, mas do Entendimento. O Entendimento nos gera os conceitos. A Razão, por sua vez, nos possibilita inferirmos conclusões após elencarmos premissas e juízos diversos.

Seguindo o que Olavo diz em seu artigo, temos a seguinte declaração:

“Ora, esse fator mediador é absolutamente necessário, e a partir do momento em que o admitimos já não podemos aceitar a doutrina de que espaço e tempo são formas projetadas, pela simples razão de que o “dentro” e o “fora”, portanto o espaço e o tempo, perderam seu caráter absoluto de categorias e, tornando-se relativos a um terceiro fator, se contaminaram perigosamente de um componente empírico.”

O que se deve comentar de novidade, agora, é Olavo dizer que, ao se contaminarem perigosamente com um componente empírico, “dentro” e “fora”[13] “perderam seu caráter absoluto de categorias”. Categorias? Não bastasse invocar as misteriosas “categorias da razão”, agora “dentro” e “fora” (“portanto o espaço e o tempo”) perdem seu caráter de “categorias”. Parece repetição indevida de nossa parte, mas a insistência na confusão nos faz novamente esclarecer que espaço e tempo para Kant são formas puras da Sensibilidade (e não categorias).

Parece-me, pois, perfeitamente adequado considerar a invenção de categorias que não existem e, também, o equívoco de chamar de categorias o que não são categorias, que foi o que Olavo fez, de erro categórico.

Avançando na leitura, chega-se a este parágrafo:

“O terceiro fator, que nos tira desse imbroglio, é, este sim, uma forma a priori da sensibilidade, e se chama existência (subentendendo-se: “existência versus inexistência”). Só se pode perceber como existente o que tem existência, e ter existência é estar inseparavelmente — embora sob aspectos distintos — no espaço e no tempo. Do mesmo modo, o inexistente é percebido como ausente do espaço e do tempo, e esta ausência ajuda a compor o quadro onde estão presentes as coisas presentes. O que quero dizer com “sob aspectos distintos” é que aquilo que é inespacial em essência e no seu puro conceito tem de se tornar espacial existencialmente e secundum quid para poder ser percebido, como por exemplo a tristeza ou a alegria que “em si” são pura temporalidade inespacial mas só podem ser vivenciadas em algum lugar do espaço (interno e externo), pela simples razão de que não vivenciamos empiricamente conceitos e essências puras, mas coisas e estados que existem no espaço e no tempo. Mutatis mutandis, o intemporal “em si” tem de se temporalizar existencialmente para existir ante a percepção.”

O leitor a este ponto do artigo já pode, por si só, apontar os erros de Olavo. Esse parágrafo conseguiu misturar todos os outros equívocos anteriores, mas com ar de sofisticação. Olavo está ignorando, ao mesmo tempo, que a existência é uma categoria, que tempo e espaço são formas puras da Sensibilidade etc. O que talvez escape à análise do leitor é uma sutil nuance de um erro. Aqui, ele não só trabalha interpretações equivocadas suas, mas nos oferece um exemplo que, não surpreendentemente, também é grosseiramente falho.

O exemplo de que estamos falando é a questão da “alegria” e “tristeza” como sendo percebidas, de acordo com a dicção de Olavo. Ora, até agora, nós estávamos trabalhando com aquilo que poderia ser, de fato, intuído. O estado mental de dor, por exemplo, é mostra de caso em que temos algo intuído internamente. Ver um copo diante de nós seria exemplo de algo que passa, também, primeiro pela intuição, o que exige a forma pura do espaço e do tempo. Acontece que, no caso da alegria e tristeza (e outras emoções), elas correspondem à matéria de uma intuição interna (da mesma forma como sensações correspondem à matéria de uma intuição externa), mas não se identificam com a própria intuição, o que quer dizer que alegria e tristeza não são intuídas (percebidas), mas são efeitos representacionais que correspondem a algo que é intuído. (Isso também será melhor explicado em nosso primeiro apêndice.)

Talvez Olavo tenha usado “percebido” com o sentido de “ter noção de sua existência”, mas aí o uso da palavra estaria repleto de equivocidade. Antes, ele já tinha feito várias declarações usando percepção no sentido estrito de Kant e não faria sentido fazer tal variação aqui quando, ainda falando da Estética Transcendental, estamos avaliando as considerações do sábio de Königsberg.

Aqui alguém poderia objetar nossa crítica alegando que, na verdade, o que Olavo quer dizer é que estados mentais, que também são inespaciais, para nós, só existem em um determinado espaço, pois, quando existem, em nós, que somos espaciais, existem no tempo e, consequentemente, no espaço. Esse mesmo objetor dirá que é isso que Olavo está tentando ilustrar na sua proposta de apresentar a existência como forma pura da Sensibilidade. Sabemos disso. E se é isso que Olavo quer dizer, então ele confirma um erro que será explicado em seguida: a confusão entre ato da percepção de si mesmo com o conteúdo da percepção e de que forma as duas coisas se relacionam, mas não se confundem.

Para que se entenda bem nossa crítica, deve-se notar que Olavo tenta fazer do espaço uma necessidade para o processo de intuição interna. O que ocorre, então, é que ele está enxergando dependência e relação apenas entre duas coisas que coexistem, mas que não estão relacionadas. É que, de fato, nós sempre estamos em algum lugar quando manifestamos alegria ou tristeza, mas o estar em algum lugar não tem participação nenhuma no processo de intuição interna, o que significa que é um erro pensar que esses estados têm de “se tornar” espaciais para que ocorram. O autor, portanto, está confundindo o ato de percepção que o sujeito tem de si mesmo (o estar em algum lugar) com o conteúdo da intuição interna.

Basta ler a Crítica da Razão Pura em B275-9 para notarmos que Kant já havia adiantado isso. E nem poderia ser diferente, pois, enquanto de fato se faz necessário o espaço para que o sujeito represente a si mesmo como um permanente no espaço, o mesmo não pode se dar com o “conteúdo” dos efeitos representacionais como instância experiencial que correspondem à alegria e tristeza, pois estes só necessitam estar em acordância com a forma pura do sentido interno.[14]

E que a existência não pode ser dada na Sensibilidade, que é a proposta de Olavo, ou mesmo exibida a priori na intuição, é algo que Kant também já afirmava:

“Estes princípios têm a particularidade de não dizerem respeito aos fenômenos e à síntese da sua intuição empírica, mas simplesmente à existência e à relação de uns com os outros, com respeito a esta existência. Ora, a maneira pela qual algo é apreendido no I fenômeno pode ser determinado a priori de tal maneira que a regra da sua síntese possa fornecer, ao mesmo tempo, essa intuição a priori em qualquer exemplo empírico que se apresente, ou seja, possa realizá-la mediante essa síntese. Mas a existência dos fenômenos não pode ser conhecida a priori e, embora por esse caminho pudéssemos chegar à conclusão de qualquer existência, não poderíamos todavia conhecê-la de maneira determinada isto é, não poderíamos antecipar aquilo pelo qual se distinguiria de outras a sua intuição empírica.” (B221)

Sendo a existência empírica dependente das condições materiais e contingentes da percepção, ela mesma não pode ser dada a priori – apenas o que corresponde ao que é necessário formalmente em toda intuição o pode. Assim, a ideia de poder definir a existência como uma forma a priori da Sensibilidade carece de sentido. [15]

Para mostrar a quais outros absurdos chegaríamos se levássemos a sério essa ideia de Olavo, gostaríamos de expor ainda duas considerações.

Um dos maiores fundamentos da filosofia kantiana é o de que o Entendimento é a faculdade dos conceitos e a Sensibilidade a das intuições. A cognição só é possível quando essas duas faculdades qualitativamente heterogêneas podem trabalhar juntas. Agora, essa tese rejeitada pelo empirismo britânico e pelo racionalismo continental já estava presente na filosofia de São Tomás de Aquino e Aristóteles. Como estes diziam, e Kant concordaria com eles, nosso intelecto só pode cognizar através de universais (conceitos); por outro lado, a nossa Sensibilidade cogniza através de particulares (intuições). O que podemos extrair disso? Que toda representação da Sensibilidade só pode ser individual e qualitativamente sensorial. Sensações, como representações subjetivas, fazem isso quanto a um objeto singular na medida em que ele impinge sobre nossos sentidos (o que nem sequer necessita de consciência, mas apenas do que Kant denominou de sinopse); enquanto a intuição o faz na medida em que exibe como percepção (i.e., consciência da sensação) de algo singular que está no espaço e no tempo, e cuja matéria corresponde a uma sensação.

O espaço e tempo, enquanto intuições puras e formas puras de toda intuição empírica, não estão alheios a isso: eles são quanta continua infinitos, ou seja, grandezas contínuas infinitas e radicalmente singulares em acordância com os princípios matemáticos e da ciência natural. Eles precedem e tornam possíveis todas as suas partes (i.e., espaço e tempo enquanto grandezas extensivas, espaço e tempo particulares/físicos). Se levássemos a sério a sugestão de Olavo, teríamos que admitir o absurdo, portanto, de uma grande existência infinita e individual que é dada a priori e que precede e torna possíveis todas as outras existências particulares (que são meras partes suas e não partes de algo maior). Algo como uma caricatura engraçada e estereotipada de um arquétipo platônico.[16]

Kant consegue escapar disso porque existência, para ele, é uma mera marca categorial, uma representação conceitual/lógico-discursiva, e que como tal, exibe um padrão que pode se replicar para instâncias individuais diferentes[17].

O segundo problema que gostaríamos de expor é o seguinte: existe um certo sentido de “subjetivo” que o espaço e o tempo compartilham qualitativamente com as sensações: o de que, do ponto de vista representacional, são pertencentes ao aparato instancial de cada sujeito. Se levássemos a ideia de Olavo às últimas consequências, isto é, que a existência fosse uma forma a priori da Sensibilidade, ele estaria aceitando esse subjetivismo e considerando que a existência é tão dependente instancialmente de nós quanto o cheiro de um queijo depende do contato direto com nosso aparato sensorial (os correlatos físico-causais existem de forma não subjetiva, já o cheiro como dimensão experiencial, não).

Uma das bases desse raciocínio se encontra no seguinte comentário de Kant:

“Aquilo que na representação de um objeto é meramente subjetivo, isto é, aquilo que constitui a sua relação com o sujeito e não com o objeto é a natureza estética dessa representação; mas aquilo que nela pode servir ou é utilizado para a determinação do objeto (para o conhecimento) é a sua validade lógica. No conhecimento de um objeto dos sentidos aparecem ambas as relações. Na representação sensível das coisas fora de mim a qualidade do espaço, no qual nós as intuímos, é aquilo que é simplesmente subjetivo na minha representação das mesmas (pelo que permanece incerto o que eles possam ser como objetos em si), razão pela qual o objeto também é pensado simplesmente como fenômeno; todavia, e independentemente da sua qualidade subjetiva, o espaço é uma parte do conhecimento das coisas como fenômenos.” Crítica do Juízo, Intro VII (2 edição), pág. 32-33.

Isso significa dizer, em outras palavras, que além de termos de considerar absurdamente que existência pudesse ser dada a priori, teríamos de admitir que um objeto só existe quando percebido diretamente por nós (ou seja, quando aplicamos essa misteriosa forma a priori que Olavo reivindica) e que a não-percepção direta ipso facto aniquila a existência empírica de um objeto. Dessa forma, Olavo está próximo do idealismo subjetivo como o de Berkeley e seu fenomenalismo.

Como Kant, fazendo jus ao seu realismo empírico, consegue fugir disso? Assim como o que servira de base para a Refutação ao Idealismo, a resposta está no ponto de que, sendo a existência uma categoria do Entendimento, quando esta é esquematizada -conforme diz o Segundo Postulado do Pensamento Empírico em Geral- torna-se possível que o que condiz com as condições materiais da percepção e está conectado a elas através das Analogias da Experiência possa ser atual, embora não seja percebido diretamente. Considere-se, por exemplo, a energia e um campo gravitacional. Eles existem empírica e independentemente se percebidos ou não, mas com a condição de que estejam comunitária e causalmente conectados com o que somos capazes de perceber. Se a existência, portanto, for uma forma pura subjetiva da Sensibilidade, tudo o que não for percebido diretamente e que não possa ser sobreposto a essa forma pura, por definição, não existe.

Talvez Olavo não concorde com as conclusões a que sua proposta de considerar a existência como forma pura da Sensibilidade (i.e., uma maneira/modo ou determinação de relações para representação em algo na Sensibilidade) leve, mas elas se seguem necessária e inequivocamente de seu raciocínio. Como demonstramos, não há como ele propor que a existência seja condição a priori da percepção sem se comprometer com seus efeitos colaterais. Se não for assim, que ele prove o contrário.

Prosseguindo na leitura do artigo de Olavo, tem-se o seguinte comentário:

“Mas o mediador, para operar essas chaves da percepção, tem de ser supra-espacial e supratemporal. A forma a priori que denomino existência tem portanto dentro de si o quadro inteiro das distinções: temporal-inespacial, temporal-espacial, espacial-atemporal e espacial-temporal. Se não o tivesse, não poderia projetá-las sobre os dados da experiência. Mas, para que o tenha, é preciso que ela própria não dependa dessas distinções, e sim se estruture internamente segundo uma distinção muito mais abrangente, que é a do real e do irreal, o primeiro constituindo-se da dupla de polos temporal-espacial (isto é, a essência temporal que se espacializa existencialmente) e espacial-temporal (a essência espacial que se temporaliza existencialmente) e o segundo da dupla espacial-atemporal e temporal-inespacial, ambos constituídos de essências puras não existencializáveis, ou meras possibilidades. Por isto defino a metafísica como ciência da possibilidade (e impossibilidade) universal, isto é, como quadro delimitador não só do conhecimento mas do real mesmo. (1) Neste sentido, a estrutura da percepção já tem uma estrutura dedicidamente metafísica.”

O palavrório sofisticado é mera evolução do que já estava sendo dito antes. O que Olavo está dizendo é que, não havendo mediação suficiente na descrição do sistema kantiano, ele propõe um ajuste que inclui o que seria a verdadeira forma pura da Sensibilidade: a existência (subentendendo-se também a inexistência). Dessa forma, há quatro ajustes possíveis de tempo e espaço, sendo a “percepção da alegria”, no parágrafo anterior, um exemplo de atemporalidade que se manifestaria espacialmente por ocorrer em nós. Com esse esclarecimento, talvez fique mais evidente o que ele quis dizer com os outros três arranjos.

O sistema proposto por Olavo parece até coerente com tudo o que vem desenvolvendo, mas é claro que isso tudo foi construído à custa de leituras distorcidas de Kant, de forma que o sistema montado é uma escada que chega até o topo, mas não tem os primeiros degraus. Forma-se, assim, um edifício bem alto, mas que não possui endereço, pois não está em lugar algum, só na mente de Olavo.

E tal proposta não faz sentido, repetimos, se pensamos que a existência não tem como ser uma forma pura da Sensibilidade, como demonstrado antes.

Não se faz necessário terminar de reproduzir o artigo de Olavo aqui, pois já ficou claro quais são seus principais erros. Uma crítica final, todavia, faz-se plenamente relevante: a completa inexistência de citações diretas de Kant da parte de Olavo. Procure-se em sua aula de filosofia uma única referência direta ao texto de Crítica da Razão Pura e o resultado será nulo. Sequer no artigo escrito por Olavo há algo dessa natureza.

Seria isso absolutamente necessário? Bem, tivesse Olavo interpretado corretamente os conceitos apresentados por Kant e se poderia amenizar essa observação negativa. No entanto, torna-se indesculpável falar por mais de uma hora da epistemologia de Kant (atribuindo-lhe estupidez e confusões), escrever um artigo crítico sobre um dos pontos mais inovadores de sua obra, colocar na boca do criticado definições que ele não deu e não usar nenhuma citação sequer como prova de suas interpretações.

E que Olavo não apareça com a desculpa de que nunca pretendeu refutar Kant ou ter oferecido uma crítica exaustiva à sua obra, pois não é disso que estamos falando também. O que reprovamos energicamente são suas alegações de que Kant estava confuso, falou um monte de besteiras e que escreveu mostras de estupidez. Esses e outros comentários podem ser encontrados aos montes na aula de Olavo e não podem mais ser apagados. Eles servirão eternamente como provas da injustiça cometida.

Nosso ânimo é de que, caso queira, Olavo possa dialogar conosco mostrando raciocínios em defesa de sua tese. Até lá, estamos convictos de que suas críticas atacam tudo, menos Kant. Preferimos acreditar que Olavo só não enxergou bem seu alvo -a epistemologia kantiana- por ignorância, mas, se a insistência no erro persistir, difícil será manter essa bondosa interpretação. Mostre ele que nossa conclusão é falha, ou, então, seremos forçados a declarar que Olavo está indiscutivelmente perdido no tempo e no espaço.

 

Apêndice 1

A verdadeira mediação entre tempo e espaço.

A razão principal pela qual o tempo se aplica a todos os objetos, independentemente se estão “fora” ou “dentro”, explica por que Olavo está errado em afirmar que não há uma articulação entre espaço e tempo em Kant. É que, uma vez que as auto-afecções[18] internas são unidas na consciência da intuição pura do tempo (já que correspondem à matéria de uma intuição interna da qual o tempo é forma), o que inclui as auto-afecções que são consequentes dos atos mentais de síntese empírica/pura responsáveis pelas aparências no sentido externo (em acordância com a forma deste), a aplicação do tempo também funciona para estas últimas.

Isso tudo faz parte da teoria mais geral de Kant, segundo a qual todas as aparências internas são meras determinações (acidentes) em acordância com a forma do sentido interno de substâncias permanentes. Essas substâncias são causalmente necessitadas também por aparências externas no espaço, que são determinações dessas mesmas substâncias permanentes (segundo a Primeira e Segunda Analogia da Experiência). Em outras palavras: embora o tempo subjugue o que está fora, impondo sua forma para as aparências externas, há uma mútua articulação e interdependência entre as duas coisas, pois o espaço é causalmente necessário para representações internas, vez que estas dependem causalmente de um permanente que só pode existir no espaço.

As aparências internas que são apreendidas na intuição interna a posteriori são, portanto, meros objetos que correspondem a acidentes de uma substância material. Uma emoção como a tristeza, por exemplo, seria o efeito representacional correspondente a um evento mental com uma forma puramente temporal, mas que tem matéria correspondente à magnitude intensiva de uma substância material externa (no caso das emoções, seria a amígdala e todo o sistema mesolímbico). E a emoção seria um efeito cognizado da mesma forma como a sensação da cor o é para ondas eletromagnéticas que provocam qualia na nossa consciência fenomênica ou a dor causada por uma picada de cobra. Logo, a teoria kantiana nos explica como o que está no sentido interno necessita indispensavelmente do espaço, articulando-se com ele.  Mesmo porque já deve haver um material externo pelo qual a mente pode operar suas funções diferentes (mesmo se aceitássemos um inatismo virtual como de Leibniz).

Kant era explícito nisso:

“O mesmo se passa com a intuição interna. Não só nela as representações dos sentidos externos constituem a verdadeira matéria de que enriquecemos o nosso espírito, mas o tempo, em que colocamos essas representações, e que precede a consciência que temos delas na experiência é, enquanto condição formal, o fundamento da maneira como as dispomos no espírito; o tempo, portanto, contém já relações de sucessão, de simultaneidade e do que é simultâneo com o sucessivo (o permanente).” (B67)

“O sentido interno […] é a consciência […] daquilo que se sofre na medida em que alguém é afetado pela própria atividade do pensamento” (Anthropology from a Pragmatic Point of View, §24)

Aparências internas apreendidas na intuição interna são, portanto, o meio pelo qual a mente exibe auto-afecções que advêm pela sua própria atividade passiva ou reflexiva sob as representações externas (e até mesmo afecções da sua própria atividade: sínteses, inferências, julgamentos etc), e que são recebidas em acordância com a forma do sentido interno.

Que representações internas, no entanto, não têm qualquer forma espacial, não parece ser algo que qualquer pessoa em boa sanidade poderia duvidar: negar isso implicaria dizer que um dado estado mental meu pode ter um lado direito, que a minha paixão tem mais espaço que a sua alegria, ou que minha inveja tem um formato triangular. Assim, a conversa sobre “espaço-interior” é sem sentido. Pensar de forma diferente pareceria até engraçado, não fosse tão preocupante ou metafórico.

Outras interdependências entre o tempo para com o espaço são encontradas no fato de que é o espaço que torna possível a imagem do tempo (A33, B154, B156, B292) e a representação dele como um objeto (B291), e é o espaço que permite entender a adequação das categorias em relação às sínteses temporais no esquematismo (AA 18).

Assim, Kant demonstra uma mútua dependência entre o espaço e o tempo. O tempo é a forma pura do sentido interno que também subjuga os objetos do sentido externo, mas ele depende do espaço para suas diferentes determinações (em vários níveis diferentes: não-discursivo, discursivo, categorial, matemático etc). É inexistente, portanto, qualquer problema sobre uma articulação entre o espaço e o tempo, e em especial, como é possível que os objetos externos sejam espácio-temporais, e os objetos do sentido interno sejam temporais mas de uma forma que possam articular-se com o espaço (mesmo que de forma mais indireta).

 

Apêndice 2

Textos de Kant em inglês que foram traduzidos por nós.

Consciousness of oneself(apperceptio) is an act whereby in general the subject makes itself into an object. It is yet no perception (apprehensio simplex), i.e, no sense representation (for which it is required that the subject be affected by means of some object, and the intuition becomes empirical), but pure intuition, which under the names of space and time contain merely the form of composition (coordinatio, et subordinatioi of the manifold of intuition; with them [arises] an a priori principle of synthetic cognition of the manifold which for just this reason makes the object in appearance representable. (Opus Postumum II, p. 413)

Space and time are intuitions without an object, hence merely subjective forms of the composition [Zusammrostellung] of the manifold into the infinite of an absolute whole (which is not a part of a still greater whole). Not something apprehensible which is given for perception (dabile), but the self-determination of the subject, the form in which it itself constitutes the object, and this is its own object. (Opus Postumum II, p. 74)

Space and time are not themselves things [Sachen], but only representations of the apprehensible relationships of representation for the subject insofar as it makes itself into an object synthetically (not analyticallyaccording to the law of identity) in pure intuition … Space and time are not given objects ofintuition but forms of intuition itself and of the synthetic relationship of the manifold in space and time. They precede the existence of objects of the senses a priori-not as perceptions (empirical representations with consciousness) nor as an aggregate of a determinate (delimited) manifold, but as a system. (Opus Postumum II, p. 90)

An intuition which is supposed to be possible a priori can only concern the form under which the object is intuited,for torepresent something apriori means to make a representation of it prior to and independentfy of perception, i.e., consciousness.  (Progress in Metaphysics, Ak 266)

 

Referências:

  1. KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 5ª Edição. Trad.: Manuela Pinto e Alexandre Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001
  2. KANT, Immanuel.  Opus Postumum II. 1ª Edição Trad.: Eckart Förster e Michael Rosen. Reino Unido. Cambridge University Press, 1993.
  3. KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. 2ª Edição. Trad.: Valério Rohden e Antônio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.
  4. KANT, Immanuel. What real progress has metaphysics made in Germany since the time of Leibniz and Wolff? Trad.: Gary Hatfield e Michael Friedman. Reino Unido.Cambridge University Press, 2002.
  5. KANT, Immanuel.  Anthropology from a Pragmatic Point of View, §24. 1ª Edição Trad.: Victor Lyle Dowdell. Estados Unidos da América. Southern Illinois University Press, 1996.

 

Notas:

[1] Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=k7-S4WU_peg>. Acesso em:10 de jan. de 2019.

[2] Disponível em : <http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/kant2.htm>. Acesso em: 26 de jan. de 2019.

[3] Por intuição, deve-se entender uma representação (a tradução correta do alemão estaria mais próxima de “presentação”) singular, sensorial e imediata, que pertence à nossa Sensibilidade (a faculdade afetiva e receptiva).

[4] Não se entenda por subjetivo algo que varia de acordo com a opinião de cada um, mas que depende do sujeito.

[5] Por aparência, entenda-se o objeto indeterminado (não-conceituado) de uma intuição empírica. Ela contém matéria e forma: basta sermos diretos em dizer que a forma corresponde ao espaço e tempo (em decorrência de a aparência estar neles) e a matéria às qualidades físico-sensoriais que correspondem à sensação.

[6]  Por conceito, deve-se entender uma representação universal, discursiva e mediata, pertencente ao Entendimento (a faculdade lógico-discursiva e ligada à espontaneidade do pensamento). Considere-se aqui o conceito de “casa”. É universal no sentido de que várias intuições de casa correspondem a ele e é discursivo pois está ligado à nossa capacidade linguística. O conceito é, também,  mediato porque, ao contrário da intuição, não necessita de que o objeto esteja presente na percepção para existir como representação, antes, refere-se a ele através de uma marca simbólica. Logo o conceito é uma representação universal que abarca vários singulares que possuem marcas características em comum.

[7] Concordamos com o fato de que a redação de Kant, por vezes, é de difícil compreensão. E não poderia ser diferente quando tentamos traduzi-la. Daí que o segundo apêndice deste artigo contém os textos em inglês para quem os quiser consultar, visto que muitos excertos aqui citados ainda não têm versão em Português.

[8] O livro Crítica da Razão Pura teve duas edições à época de Kant. A primeira, a partir da publicação da nova versão corrigida, chamou-se “A” e a segunda chamou-se “B”. Se o leitor tiver acesso a alguma versão do livro, verá que o texto é marcado, em vários trechos, com expressões como “A 18” ou “B45”, que nos ajudam a procurar e citar trechos da redação de Kant.  Por isso, para posicionar o leitor a respeito de onde a passagem citada se encontra, iremos nos expressar usando essa nomenclatura que é difusamente usada.

[9]  Acreditamos que uma tradução melhor seja “aparência”, no lugar de “fenômeno”.

[10] A crítica que fizemos nesse parágrafo está levando em conta que uma relação de identificação seja a de X=Y, que é o que se entende em textos filosóficos. Mais para frente, ver-se-á que Olavo usa um comentário para falar de “fora” e “dentro” explicando-lhes como “espaço” e “tempo”, o que confirma nossa leitura de que ele esteja possivelmente igualando uma coisa à outra. Talvez Olavo esteja usando um sentido diverso de “identificação”, mas isso não o livra da crítica de que empregou a expressão em sentido equívoco e com falta de precisão.

[11] Ressaltamos, porém, que em alguns trechos do texto de Olavo ele parece dar a entender que o tempo também se aplica ao que é externo. Isso ocorre no seguinte trecho: “Dizer que algo está fora é, então, apenas dizer que não tem uma existência puramente temporal, mas que além de existir no tempo tem alguma outra determinação especificamente diferente.” No entanto, como se vê mais para frente, Olavo está falando de outra coisa que não é propriamente o tempo. Isso se evidenciará quando ele fizer sua proposta de ajuste. Aliás, sua crítica sobre a mediação do tempo e do espaço só faz sentido se considerarmos que ele, de fato, acredita que Kant limita o tempo à interioridade, que é o que ele diz em todo o texto, exceto nesse ponto, que parece fazer referência ao eixo da existência que ele proporá mais adiante.

[12] Aqui entramos no que se chama “Esquematismo Transcendental”. O esquematismo diz respeito à Doutrina Transcendental do Julgamento (a subsunção das intuições empíricas sob as regras universais do Entendimento). Um esquema é basicamente o terceiro mediador entre conceitos e intuições, e uma resolução para o problema da heterogeneidade: como duas coisas tão diferentes (uma sendo uma representação sensível e singular, e a outra uma representação universal e discursiva) podem interagir ou ter algum contato. Se Kant seguisse a doutrina racionalista da Escola de Leibniz-Wolff, o problema estaria resolvido na medida em que intuições são concebidas como um “pensar” confuso, i.e., uma mera distinção de graus. Porém, Kant rejeita essa forma de intelectualismo e afirma explicitamente a distinção heterogênea e qualitativa entre o Entendimento e a Sensibilidade. O problema aparece de forma ainda mais séria no caso das categorias: como conceitos puros podem ser constitutivos e serem aplicados em todo objeto de intuição empírica? Faz-se necessária, portanto, essa mediação esquemática: no que se divide entre esquematismo empírico, puro/matemático e o transcendental.

Um esquema, portanto, é a exibição sensível de um conceito, um produto da Imaginação pelo qual pode-se solucionar tal problemática. Tal contribuição é o que hoje, na psicologia cognitiva se chama de “protótipo”, e aparece nos trabalhos de cientistas cognitivos como Robert Abelson (“script”) ou Minsky (“frame”). Em se tratando dos conceitos empíricos e matemáticos, eles servem como uma regra segundo a qual a Imaginação pode criar a configuração mais geral para a exibição de uma imagem (um constructo perspectival e tridimensional) em uma intuição sensível (para a segunda classe, trata-se da construção matemática, i.e., exibição a priori de um conceito matemático na própria intuição pura que serve como regra para a determinação da síntese da Imaginação produtiva).

Já para as categorias do Entendimento, a sua aplicação em todos os objetos de intuição empírica é realizada por meio de sínteses na intuição pura do tempo. E como se trata de algo puro e a expressão pré-discursiva da mesma unidade sintética pela qual as categorias também vem à tona, além de poder determinar tanto os objetos do sentido interno quanto o externo, este é o mediador perfeito. Para cada categoria, corresponde-se uma determinação temporal. Portanto, o esquematismo transcendental não é nada mais do que determinações a priori no tempo de acordo com regras em acordância com as categorias.

[13] Esse trecho é forte evidência no sentido de que a relação de identidade, anteriormente suscitada, é a de igualar “dentro” a “tempo” e “fora” a “espaço”. Como Olavo considera que espaço e tempo são categorias (o que não é assim em Kant), possivelmente há equiparação quando diz que “dentro” e “fora” são categorias. O fluxo do raciocínio, cujo ápice é a explicação: “o ‘dentro’ e o ‘fora’, portanto o espaço e o tempo”, evidencia que, para Olavo, falar de uma coisa é falar automaticamente da outra. Se a intenção do autor foi diversa, ele não pode nos culpar da conclusão a que sua redação inequivocamente possibilita levar. E mesmo que relevemos isso, que não se esqueça de que “dentro” e “fora” não são categorias para Kant.

[14] A situação talvez fique mais clara com o uso de uma analogia: durante toda vida o ser humano está vestido de sua pele, mas ela não é necessária para que ele consiga pensar. Todos os pensamentos que o homem tem ele os teve estando com sua pele. Mas ela mesma não é necessária para que ele tivesse qualquer pensamento. E o mesmo se dá com o espaço em que temos nossas intuições internas. Embora sempre estejamos em algum local, ele nada tem que ver com o processamento das intuições.

[15] É por essa razão que os Princípios matemáticos concernentes à sua forma (Axiomas da Intuição) e a sua matéria (Antecipações da Percepção) são constitutivos das aparências e exibidos a priori em toda intuição. Em se tratando das Analogias da Experiência e dos  Postulados do Pensamento Empírico em Geral, esses são meros  princípios regulativos que demonstram o que é a priori necessário na relação concernente entre essas aparências, uma vez que elas já existem.

[16] Para que se entenda melhor a crítica, talvez uma comparação ajude. Para Kant, tempo e espaço metafísicos/transcendentais na Estética transcendental são magnitudes (grandezas) infinitas  individuais e inteiras que precedem e tornam possível os espaços e tempos particulares (como grandezas extensivas). Essas grandezas extensivas nada mais são que as partes que consideramos desse todo, como metros e centímetros (falando do espaço) ou horas e minutos (falando do tempo), limitações feitas através do Esquematismo Transcendental (ver nota de rodapé número 10). Assim, se a “existência” também fosse uma forma pura da Sensibilidade, teríamos de considerar o absurdo de pequenos fragmentos particulares (assim como os metros e minutos) da “existência” maior como um conjunto infinito dado. O que, em si, já seria um absurdo.

[17] Isto é, as aparências exibidas na intuição empírica se tornam atuais/existentes empiricamente na medida em que a categoria da existência se aplica a priori a elas conforme diz o Segundo Postulado do Pensamento Empírico em Geral.

[18] Efeito representacional de quando o sujeito afeta a si mesmo pelo sentido interno e intui um estado mental ou atividade mental sua. Elas são os dados do sentido interno da mesma forma como sensações são dados do sentido externo.

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